Fed mantém juros dos EUA na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano em última decisão com Powell na presidência

Fed mantém juros dos EUA na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano em última decisão com Powell na presidência


Foto de arquivo: O presidente dos EUA, Donald Trump, observa Jerome Powell, seu indicado para presidir o Federal Reserve (Fed), durante discurso na Casa Branca, em Washington, EUA, em 2 de novembro de 2017.
REUTERS/Carlos Barria/Foto de arquivo
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, manteve a taxa de juros do país inalterada na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano — menor nível desde setembro de 2022. A decisão, anunciada nesta quarta-feira (29), veio em linha com a expectativa do mercado financeiro.
Foi a terceira reunião consecutiva em que o banco central dos EUA manteve a taxa no mesmo nível. Esta também é a última decisão com Jerome Powell na presidência da instituição. Ele deixará o cargo em 15 de maio, após oito anos no comando e em meio a atritos com Donald Trump. (leia mais abaixo)
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A guerra no Oriente Médio e a consequente disparada do preço do petróleo no mercado global continuaram em destaque na decisão desta quarta-feira. A principal preocupação do banco central americano é o impacto sobre a inflação no país.
➡️ A política de juros nos EUA tem reflexos no Brasil. Com as taxas em nível historicamente elevado, cresce a pressão para que a Selic, taxa básica de juros brasileira, permaneça em patamar alto por mais tempo, além de gerar efeitos sobre o câmbio.
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Esta é a 11ª decisão desde que Donald Trump assumiu como 47º presidente dos EUA, em 20 de janeiro de 2025. Desde a posse, houve três cortes de juros, em meio a um cenário econômico incerto, com conflitos geopolíticos e a guerra tarifária promovida pelo republicano.
O que disse o Fomc
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) informou, em comunicado, que a atividade econômica dos EUA tem se expandido em um ritmo sólido, enquanto a criação de empregos permaneceu baixa e a taxa de desemprego mudou pouco nos últimos meses.
O colegiado destacou que a inflação “está elevada, refletindo, em parte, o recente aumento nos preços globais de energia”, em meio à guerra entre os EUA e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro. (leia mais abaixo)
“Os desdobramentos no Oriente Médio estão contribuindo para um alto nível de incerteza sobre as perspectivas econômicas. O Comitê está atento aos riscos”, diz o texto.
O Fomc afirmou ainda que “continuará monitorando as implicações das novas informações recebidas para a perspectiva econômica” e que está “preparado para ajustar a política monetária, conforme apropriado, caso surjam riscos que possam dificultar o alcance de seus objetivos”.

Impactos da guerra no Oriente Médio
Com o início da guerra, em 28 de fevereiro, o petróleo disparou no mercado internacional e chegou a US$ 120, o maior nível desde 2022. Na tarde desta quarta-feira, o barril do tipo Brent era cotado a US$ 118,70, o que representa uma alta de mais de 60% desde o início do conflito.
Diante do cenário, Trump passou a buscar formas de conter a alta da commodity, atento ao impacto no bolso dos eleitores americanos e às eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro. (leia mais aqui)
Petróleo mais caro costuma significar gasolina e diesel mais caros — e, em efeito cascata, pressões sobre os preços de diversos produtos nos EUA. O cenário preocupa, em especial, o Fed, que tem mandato duplo: controlar a inflação e manter o mercado de trabalho aquecido.
“O Comitê está fortemente comprometido em apoiar o máximo emprego e em trazer a inflação de volta à meta de 2%”, declarou o Fomc nesta quarta-feira. Atualmente, a taxa está em 3,3% no acumulado em 12 meses.
Nos dados mais recentes, os preços nos EUA subiram 0,9% em março, no maior aumento desde maio de 2024, influenciados pela alta nos custos de energia, alimentos e moradia.
A pressão é reforçada pelos combustíveis: dados da associação automobilística AAA mostram que o preço da gasolina já subiu mais de 40% desde que o republicano iniciou a guerra.
🚢 O fator central da disparada dos preços é o bloqueio do Estreito de Ormuz, principal rota global do petróleo, por onde passa cerca de 20% do consumo mundial. A região — responsável também por cerca de um quinto do comércio global de gás natural (GNL) — registrou forte queda no tráfego de navios após o Irã anunciar o bloqueio e ataques a petroleiros.
O fluxo da commodity na região passou a preocupar Trump, que chegou a pedir apoio de outros países para monitorar e “cuidar” da passagem — solicitação rejeitada por aliados europeus e asiáticos.
Na sequência, o presidente determinou que a Marinha dos EUA bloqueasse a passagem de navios petroleiros ligados ao Irã que ainda circulavam pela área. Com isso, o estreito segue no centro da disputa, tanto sob o ponto de vista geopolítico quanto econômico.
Fim do mandato de Powell
Esta é a última reunião de decisão de juros com Jerome Powell à frente da instituição, após oito anos no cargo.
A expectativa é que o economista Kevin Warsh, indicado por Trump, esteja à frente da instituição já na próxima reunião, marcada para os dias 16 e 17 de junho. O nome de Warsh foi aprovado por um comitê do Senado nesta quarta, antes de seguir para votação no plenário.
Apesar do fim do mandato como presidente, Powell afirmou nesta quarta que permanecerá como diretor do Fed. Ele tem mandato até janeiro de 2028.
“Continuarei a servir como diretor por um período ainda a ser determinado”, disse em entrevista coletiva nesta quarta-feira. “Só existe um presidente do conselho do Federal Reserve. Quando Kevin Warsh for confirmado e tomar posse, ele será o presidente”, acrescentou.
O economista pode seguir na diretoria até o término do governo Trump, que, ao longo dos últimos anos, elevou o tom das críticas ao atual chefe da instituição, com xingamentos frequentes como “mula”, “cabeça oca” e “estúpido”.
RELEMBRE A TRAJETÓRIA DE POWELL À FRENTE DO FED:
Pressão e ofensas de Trump: Superquarta terá última decisão de Powell à frente do Fed; relembre
É praxe que presidentes do Fed também deixem o cargo de diretor ao fim do mandato. Em meio aos embates com Donald Trump, Powell afirmou nesta quarta que, ao permanecer na instituição, não pretende interferir na provável liderança de Kevin Warsh.
“Minha intenção não é interferir”, disse. “Fui diretor por quase seis anos e, como alguém prestes a deixar a presidência, entendo como é difícil construir consenso.”
Busca por cadeiras
No segundo semestre de 2025, Trump intensificou as críticas ao Federal Reserve e passou a se dedicar à indicação de nomes alinhados à sua agenda econômica para a diretoria da instituição.
Em setembro, o republicano nomeou Stephen Miran para substituir Adriana Kugler, diretora que antecipou sua saída e deixou o cargo em agosto. Além disso, há o nome de Warsh, indicado para chefiar a instituição.
Paralelamente, a Suprema Corte ainda analisa a tentativa do republicano de demitir Lisa Cook do cargo de diretora do Fed. Caso a Justiça confirme a demissão de Lisa Cook, Trump terá garantido ao menos duas indicações para a diretoria do Fed , além do presidente da instituição.
Em meio às movimentações no Fed, caso Trump alcance maioria de aliados no conselho da instituição — que tem sete membros —, ele terá maior influência sobre a aprovação das nomeações nos 12 bancos regionais. Assim, ampliaria sua interferência sobre as decisões de juros.
Mais uma vez, a decisão de juros nesta quarta não foi unânime. Além do presidente do Fed, Jerome Powell, e do vice, John C. Williams, outros nove diretores votaram para manter a taxa inalterada — três deles, no entanto, divergindo do tom do comunicado. Apenas Stephen Miran, nomeado por Trump, se posicionou a favor de um corte de 0,25 ponto percentual.
Efeito dos juros no Brasil — e nos mercados
Os juros, ainda considerados elevados nos EUA, mantêm os rendimentos das Treasuries, os títulos públicos americanos, em níveis mais atraentes.
Por serem considerados os investimentos mais seguros do mundo, as Treasuries com rentabilidades elevadas despertam o interesse de investidores estrangeiros, que direcionam recursos aos EUA e fortalecem o dólar.
Em outra perspectiva: apesar de diversas variáveis interferirem nessa lógica, o movimento tende a reduzir o volume de investimentos estrangeiros no Brasil, desvalorizando o real em relação à moeda americana.
Além disso, o dólar em nível elevado aumenta a pressão sobre a inflação por aqui, com reflexos na manutenção de juros altos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil.
Prédio do Federal Reserve dos EUA em Washington, EUA (maio/2020)
Kevin Lamarque / Reuters

Foto de Leonice Santos

Leonice Santos

Criadora de conteúdo digital

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